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Vale a pena um Janeiro Seco? Ano Novo convida a refletir sobre o consumo de álcool

publicado em 08 Jan. 2026

Há benefícios imediatos em deixar de beber álcool, mas os especialistas consideram insuficiente só reduzir o consumo em Janeiro e convidam a repensar os comportamentos durante todo o ano.

O movimento conhecido como “Janeiro Seco” surgiu há mais de uma década no Reino Unido como resposta aos excessos associados à época natalícia, propondo um mês inteiro sem consumo de álcool. Ao longo dos anos, ganhou dimensão internacional e passou a contar com a adesão de milhões de pessoas, incluindo figuras públicas, tornando-se também uma tendência amplamente divulgada nas redes sociais. Em Portugal, não existem dados oficiais sobre a adesão ao movimento, nem se observa interesse e disponibilidade para falar sobre o tema.

 

 

Mais do que um desafio pontual, o Janeiro Seco é encarado como uma oportunidade para refletir sobre os hábitos de consumo de álcool ao longo de todo o ano. Os especialistas consdieram que apenas reduzir ou suspender o consumo durante um mês é insuficiente se não houver uma mudança mais profunda e sustentada dos comportamentos.

 

 

O álcool é uma substância “tóxica” para o organismo, não tem valor nutricional e exerce um efeito nocivo em vários sistemas, sendo o fígado um dos principais órgãos afetados. O processo de metabolização do álcool sobrecarrega o fígado, promove inflamação, acumulação de gordura hepática e aumenta o risco de doenças graves como cirrose e cancro do fígado.

 

 

A ideia de que o consumo ligeiro de álcool pode trazer benefícios para a saúde, frequentemente associada à dieta mediterrânica e ao consumo de vinho às refeições, tem sido progressivamente contrariada pela evidência científica. A Organização Mundial da Saúde tem vindo a reforçar a necessidade de políticas mais rigorosas para reduzir o consumo de álcool, alertando para a sua associação ao aumento do risco cardiovascular, a vários tipos de cancro e a outras doenças crónicas.

 

 

Segundo a autoridade de saúde, o alcool foi responsável po 111 300 novos casos de cancro na União Europeia (UE) em 2020, em plena pandemia de covid-19, tendo sido o colorrectal, o da mama e o da cavidade oral os mais frequentes.

 

 

A definição de consumo moderado situa-se abaixo de 20 gramas de álcool puro por dia, o que corresponde aproximadamente a uma média semanal de cerca de 1,5 litros de vinho com 12% de álcool, 3,5 litros de cerveja ou 450 mililitros de bebidas espirituosas.

 

 

Ainda assim, este padrão continua a representar riscos para a saúde, sobretudo em países como Portugal, que apresentam dos níveis mais elevados de consumo de álcool entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Os dados disponíveis indicam um consumo per capita anual elevado, com impacto significativo na saúde pública.

 

 

Existe uma forte normalização social do consumo de álcool, frequentemente associado a convívio, celebração e relaxamento, o que contribui para a desvalorização dos seus efeitos negativos. Muitas vezes, questiona-se quem não bebe, mas raramente se questiona por que motivo se bebe.

 

 

Esta pressão social é um dos fatores que contribui para padrões de consumo excessivos, incluindo episódios de consumo concentrado em curtos períodos de tempo. O álcool acaba por funcionar, em alguns casos, como um mecanismo de regulação emocional, sendo utilizado para aliviar ansiedade, stress ou desconforto social.

Os benefícios da abstinência

 

 

Os benefícios de deixar de beber álcool surgem de forma relativamente rápida. A curto prazo, observa-se melhoria da qualidade do sono, maior clareza mental, melhor controlo da tensão arterial e aumento da energia. Muitas pessoas referem também melhorias na memória e na capacidade de concentração.

 

 

A perda de peso é outro efeito frequente, uma vez que o álcool é uma fonte significativa de calorias vazias e está associado ao aumento do apetite e à acumulação de gordura, sobretudo abdominal.

 

 

Segundo a Psicologa, interromper o consumo de álcool durante um mês não deve ser visto como uma medida radical. Na sua perspectiva, o que pode ser verdadeiramente extremo é não questionar o papel que o álcool desempenha nos hábitos quotidianos.

 

 

Para pessoas com um consumo quase diário, uma pausa temporária pode ser particularmente benéfica, na medida em que promove uma maior consciência sobre os motivos que levam a beber e permite observar e refletir sobre padrões de consumo que tendem a instalar-se de forma automática, como o hábito de consumir álcool ao jantar.

 

 

Para além dos impactos físicos bem conhecidos, o álcool, enquanto substância depressora do sistema nervoso central, está associado a consequências psicológicas relevantes, incluindo ansiedade, agravamento de sintomas depressivos e perturbações do sono.

 

 

A crença de que um copo de vinho tinto favorece o descanso noturno não corresponde à evidência clínica, uma vez que o organismo necessita de metabolizar o álcool durante a noite, interferindo com as fases naturais do sono e comprometendo a sua qualidade. Por essa razão, períodos de abstinência podem ser uma oportunidade para identificar padrões automáticos de consumo que passam despercebidos no quotidiano.

 

 

O álcool é frequentemente utilizado como mecanismo de regulação emocional, funcionando como forma de relaxamento ou como elemento central de convívio social, sobretudo em contextos de celebração. O consumo acaba por ser amplamente normalizado nessas situações, ao ponto de raramente ser questionado. Em muitos contextos sociais, questiona-se mais facilmente a ausência de consumo do que o próprio ato de beber, o que revela uma normalização e uma subestimação dos efeitos do álcool.

Como sobreviver sem álcool?

 

 

Para quem tem um consumo regular, o desafio de ficar sem álcool pode ser mais exigente. Nesses casos, pode ser útil encarar o Janeiro Seco como um período de adaptação, reduzindo gradualmente a quantidade ou a frequência do consumo, em vez de uma interrupção abrupta.

 

 

Substituir bebidas alcoólicas por alternativas sem álcool, como água aromatizada ou chá, pode ajudar, desde que se evite recorrer a refrigerantes ou bebidas ultraprocessadas. Trocar uma bebida prejudicial por outra não traz benefícios reais.

 

 

No contexto social, é expectável que surjam comentários ou curiosidade quando alguém opta por não beber. Embora nem sempre exista reprovação explícita, pode haver um ligeiro desconforto associado à quebra da norma.

 

 

Ainda assim, muitas pessoas relatam que conseguem manter uma vida social ativa e satisfatória sem álcool, com uma vivência mais consciente e atenta dos momentos.

 

 

No final, o Janeiro Seco não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas como um ponto de partida para uma reflexão mais ampla. O verdadeiro impacto está na capacidade de transformar esta experiência numa mudança duradoura, promovendo uma relação mais saudável, informada e consciente com o álcool ao longo do ano.

Entrevista in Jornal Público 02/01/2026