A Medicina do Estilo de Vida é uma abordagem que visa a promoção de mudanças comportamentais para a adoção de um estilo de vida saudável. Desta forma, os objetivos principais são promover a saúde e o bem-estar físico e psicológico dos doentes, assim como, prevenir o aparecimento das doenças crónicas (1).
É importante clarificar, no entanto, que a Medicina do Estilo de Vida não é “medicina alternativa”, mas antes uma abordagem baseada na evidência científica sobre o impacto do estilo de vida nas doenças crónicas e na qual a medicação pode ser um complemento essencial.
Porque precisamos da Medicina do Estilo de Vida hoje?
O mundo mudou, e as doenças crónicas não transmissíveis passaram a ocupar um papel central nas causas de morte nos países desenvolvidos, como em Portugal.
A nível nacional, a hipertensão arterial, a diabetes, as doenças cardiovasculares e o cancro estão entre as doenças crónicas mais frequentes (2).
É comum ouvirmos a frase de que a doença “está nos genes”, mas a ciência moderna, através da epigenética, diz-nos algo diferente. Como afirma o Dr. Francis Collins (líder do Projeto Genoma Humano), “os genes carregam a arma, mas o estilo de vida puxa o gatilho” (3). Isto significa que, embora possamos ter uma predisposição hereditária para certas doenças, são as nossas escolhas diárias — o que comemos, como gerimos o stress crónico e a qualidade do nosso sono — que funcionam como o interruptor que decide se esses genes se vão manifestar ou permanecer “adormecidos”.
Quais são os pilares onde podemos intervir?
Atualmente, cerca de 1/3 das mortes podem ser atribuídas a fatores de risco comportamentais e ambientais (4). Desta forma, intervindo nestes fatores podemos influenciar o surgimento e a evolução das doenças crónicas.
Partindo deste pressuposto, a Medicina de Estilo de Vida foca a sua atuação em 6 pilares fundamentais, nomeadamente a alimentação, a atividade física, o sono, o controlo de stress, as relações sociais e a evicção de substâncias tóxicas. Em cada consulta, são identificados os pilares que carecem de intervenção e o doente é questionado ativamente sobre as áreas da vida para as quais está motivado para a mudança. Tendo em conta a motivação e a disponibilidade de cada doente, o plano terapêutico é definido em conjunto do médico, assumindo o doente um papel ativo em todo o processo.
O Tratamento
Na prática clínica convencional, a pressão do tempo e a necessidade de respostas rápidas levam, muitas vezes, a que o foco recaia no tratamento farmacológico dos sintomas. No entanto, na Medicina do Estilo de Vida, olhamos para a patologia como resultado das nossas escolhas diárias e nos hábitos que moldam a nossa saúde.
Mas, o que torna esta consulta diferente? Eis aqui os tópicos essenciais:
- Plano Individualizado: Não existe uma “receita única”. O plano terapêutico é adaptado à rotina real, com objetivos específicos e alcançáveis.
- Motivação e Autonomia: A mudança não é imposta, mas antes motivada pela vontade do doente. O médico atua, portanto, como um guia, ajudando-o a ajustar hábitos de forma gradual e realista.
- Abordagem Multidisciplinar: Como a saúde é física, mental e social, o médico não trabalha sozinho. Trabalha em equipa multiprofissional com nutricionistas, psicólogos, fisioterapeuta, entre outros profissionais, para garantir um acompanhamento total.
O poder da prevenção
Não se trata apenas de viver mais anos, mas de garantir que vive esses anos com mais qualidade, mais energia e autonomia. A prevenção é a estratégia mais eficaz para proteger a sua saúde.
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Bibliografia
European Lifestyle Medicine Organization. What is Lifestyle Medicine? [Internet]. Geneva: ELMO; [citado em 20 Jan 2024]. Disponível em: https://www.eulm.org/what-is-lifestyle-medicine/
Direção-Geral da Saúde. Doenças Crónicas em Números – 2019. Lisboa: DGS; 2020. Disponível em: https://www.dgs.pt/
Collins F. Environmental Health Perspectives: The Genome Project and the future of medicine. National Institutes of Health (NIH); 2005.
OECD/European Observatory on Health Systems and Policies. Portugal: Perfil de Saúde do País 2021, State of Health in the EU. Paris: OECD Publishing; 2021. Disponível em: https://eurohealthobservatory.who.int/publications/m/portugal-country-health-profile-2021