Uma mãe disse-me que gostava de ser pediatra para poder conseguir filtrar todo o conhecimento disponível e cuidar melhor do seu filho. Achei graça, pois mesmo quem está no meio não o sabe fazer.
Como pediatra, ao escutar repetidamente problemas, dúvidas e preocupações desta fase nas consultas, tendo também por base a experiência de casa — com o mais novo dos meus três filhos a terminar a sua adolescência —, penso com frequência como é muito mais difícil atravessá-la agora, do que o era no nosso tempo.
Julgo que todos os pais pensam assim, ou se não o fazem, deveriam, para lhes ser possível acompanhar melhor os seus filhos e estar minimamente a par das vertiginosas mudanças a acontecer à sua volta.
Adolescentes alheados do mundo virtual, com telemóvel de teclas, tal como li há tempos num artigo, são muito menos que uma minoria.
Interesso-me por me atualizar como médica, não só cientificamente mas sobretudo de uma forma um pouco alternativa — muito útil para não ser apanhada de surpresa por trends que ignorava, tanto em puericultura como na adolescência: lendo artigos nos media, e seguindo influencers dos pais e dos filhos. Já aprendi muito, assim, e ensinei também.
Um dia destes, uma mãe disse-me que gostava de ser pediatra para poder conseguir filtrar todo o conhecimento disponível e cuidar melhor do seu filho. Achei graça, pois mesmo quem está no meio não o sabe fazer. Mas admito que me é mais fácil, obviamente, e por isso me mantenho atenta ao que circula nas redes, que para mim são, sublinho, uma espécie de ferramenta.
A propósito, li também, por estes dias, uma notícia sobre um assunto que ignorava por completo mas sobre o qual importa estar alerta — o lookmaxxing. Depois de o ler, fui vasculhar o TikTok e rapidamente encontrei o Clavicular, o miúdo inglês com milhares de seguidores adolescentes num culto obsessivo pela imagem.
Uma espécie de seita: os “sub-humanos” (adolescentes ainda não retocados) que o procuram, pretendem a sua ajuda para ascenderem numa escala descontrolada que envolve um escrutínio milimétrico da aparência física; estimula-se assim a constante insatisfação com o aspeto exterior, que faz libertar muita dopamina e os vicia hipnoticamente, com o inevitável prejuízo para a saúde mental.
Surreal mas real, com miúdos a injetarem botox, a fraturarem o osso maxilar para o definirem, a submeterem-se a dietas rígidas e nutricionalmente inadequadas como complemento de treinos de ginásio desadaptados à idade para obtenção do auge de massa muscular.
É conhecida como característica típica desta faixa etária a distorção da autoimagem corporal, e a tentativa de uniformização, sob pena de exclusão do grupo de pares.
Da minha experiência, há muito que me apercebo do aumento de casos de anorexia principalmente nas raparigas, mas nunca vi tantas meninas a utilizarem uma panóplia infindável de produtos de skincare como ultimamente — basta fazer scroll pelas influencers que seguem e que as aconselham, ou ver imagens de adolescentes filtradas e baseadas em Inteligência Artificial (IA) dos seus feeds para compreender o motivo.
Há menos tempo, comecei a ter em consulta rapazes obcecados com suplementos. Há uns meses vi um rapaz, traumatizado por uma rejeição amorosa, que interiorizou como motivo o seu aspeto físico e que vivia focado em o melhorar, descurando tudo o resto. Questionado por mim, perante a hipótese de poder mais tarde perder um rim pelo excesso de suplementos, respondeu-me não se preocupar nada, pois nem pretendia chegar à minha idade, queria era “viver no presente”.
Não me admiro portanto, e dado o algoritmo procurar avidamente os grupos alvo, que esta tendência de lookmaxxing cresça exponencialmente entre os nossos adolescentes. E se nem todos têm orçamento para tudo (embora haja os que já invistam as suas mesadas…), fraturar ossos com um martelo é de graça.
Sermos melhores pais é com certeza anseio de todos. Saibamos, mais do que dar sermões, escutar os nossos adolescentes. Promover o diálogo mal os nossos filhos aprendam a falar, é mais eficaz a longo prazo do que atitudes extremistas de proibição desde tenra idade.
E aproveitar bem os momentos em que lhes apetece conversar para lhes transmitir valores; para que aos poucos se tornem imunes às trends com que se deparam nas redes, e descubram por eles próprios, como a verdadeira beleza é, mesmo, a que está no seu interior.
Entrevista in PÚBLICO, 06/04/2026