O que mais ouvimos dos nossos doentes não é “quero que me cure”, mas “quero que alguém acredite em mim”
O médico de família tem o privilégio de acompanhar a mesma pessoa durante anos, as suas famílias e contextos. Essa continuidade permite reconhecer a dor antes de a mesma dominar completamente a vida.
Em Portugal existe uma ideia estranha: a de que sofrer faz parte da vida. É da idade. É das costas. É dos joelhos. É “dos nervos”. Como se a dor crónica fosse um destino inevitável e não uma doença prevenível, rastreável e tratável.
Talvez, por isso, muitas pessoas aprendam a viver em silêncio. Chegam à consulta com o seu médico de família e falam da hipertensão, da diabetes, do colesterol e de uma miríade de outros problemas de saúde. Mas a dor fica para o fim, quase como um pedido de desculpa. Habitualmente, com frases como “Já agora, doutor…”, “Se ainda houver tempo…” ou “Se calhar isto é normal na minha idade, mas…”.
Há muito que o fado de sofrer deixou de fazer sentido. E, no entanto, continuamos, demasiadas vezes, a aceitá-lo como “normal”. A dor crónica é uma das doenças crónicas mais prevalentes e incapacitantes do mundo. Rouba autonomia, limita relações, condiciona o trabalho, destrói o sono, aumenta o risco de ansiedade e depressão e compromete profundamente a qualidade de vida.
Ainda assim, continua a ser uma das doenças mais invisíveis. Sim, uma doença. Porque continua tão invisível? Talvez porque não se mede como a pressão arterial ou a glicemia. Ou porque nem sempre aparece numa radiografia ou numa ressonância magnética. Mas o sofrimento existe. E quem vive com dor sabe-o melhor do que ninguém, já que convive diariamente com essa companheira silenciosa e corrosiva.
Ao longo dos anos, percebi que aquilo que mais magoa muitos destes doentes não é apenas a dor física. É a sensação de que deixaram de ser compreendidos. Sentem que a família já não entende, que os colegas de trabalho acham que exageram, que os amigos se cansam de ouvir falar do mesmo problema. E, por vezes, sentem até que os profissionais de saúde duvidam da legitimidade do seu sofrimento. Isso devia preocupar-nos, porque o consultório médico deveria ser, antes de mais, um lugar seguro. Um espaço onde ninguém sente necessidade de justificar que sofre.
Falamos, e bem, da importância de rastrear hipertensão arterial, diabetes, doença renal crónica, depressão e tantas outras doenças. Fazemo-lo porque sabemos que diagnosticar precocemente muda vidas. Mas, quantas vezes, perguntamos, de forma sistemática, se aquela pessoa vive com dor há mais de três meses (período que, na maioria dos casos, permite caracterizá-la como crónica)? Quantas vezes rastreamos verdadeiramente a dor crónica?
Talvez a pergunta seja incómoda. Mais incómodo, porém, é perceber que convivemos diariamente com uma das doenças crónicas mais frequentes sem a procurarmos ativamente. Esperamos que seja o doente a falar, mas muitos já desistiram de o fazer.
Um médico de família tem um privilégio raro: acompanha pessoas durante anos, conhece as suas famílias, os seus contextos, as suas perdas e as suas conquistas. Percebe quando alguém deixou de caminhar, deixou de dormir, começou a faltar ao trabalho ou deixou de fazer aquilo de que gostava. É essa continuidade que permite reconhecer a dor antes de a mesma dominar completamente uma vida.
Nem todas as pessoas com dor crónica precisam de ser acompanhadas numa unidade de dor hospitalar, mas todas precisam que alguém assuma a responsabilidade de olhar para a sua dor de forma continuada e centrada na pessoa, com proximidade, continuidade e conhecimento profundo do seu contexto. O sucesso do sistema de saúde não está em encaminhar todos os doentes para uma unidade de Dor, mas em perceber quais necessitam verdadeiramente destes cuidados diferenciados e em garantir que os restantes encontram uma resposta competente e estruturada nos cuidados de saúde primários.
A dor crónica raramente se resolve numa única consulta, mas quase nunca começa a resolver-se se ninguém lhe pegar. Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de a considerar um “já agora” da consulta e de lhe dar o estatuto que merece. Como doença crónica que é, exige tempo, escuta ativa, acompanhamento e articulação entre diferentes profissionais e níveis de cuidados.
No fundo, aquilo que mais ouvimos dos nossos doentes não é “quero que me cure”, mas “quero que alguém acredite em mim”. Talvez este efeito terapêutico do próprio médico seja o primeiro tratamento que lhes devemos oferecer: a validação de que o seu sofrimento é real. Às vezes, uma frase simples como: “Acredito que isto lhe esteja a causar um enorme sofrimento” pode ser o primeiro passo para lhes devolver a esperança. Nenhuma palavra substitui um analgésico quando ele é necessário, mas nenhuma terapêutica será verdadeiramente eficaz se o doente continuar a sentir-se invisível.
Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de esperar pelo “já agora”, porque a dor crónica nunca deveria ser um “já agora”, mas uma prioridade num sistema de saúde robusto, evoluído e verdadeiramente centrado nas pessoas.
Entrevista in Observador 24/08/2026