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Fármacos anti-obesidade: o que sabemos?

publicado em 17 Jun. 2026

A obesidade e a diabetes tipo 2 são duas das doenças crónicas mais prevalentes da atualidade e estão associadas a um risco acrescido de doença cardiovascular, doença renal e redução da qualidade de vida.

 

Nos últimos anos, o desenvolvimento dos agonistas do recetor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e, mais recentemente, dos agonistas duplos GLP1/GIP, veio transformar a abordagem terapêutica destas patologias.

 

Inicialmente desenvolvidos para o tratamento da diabetes tipo 2, estes medicamentos demonstraram benefícios muito para além do controlo glicémico, incluindo uma perda de peso significativa e sustentada, bem como efeitos favoráveis na saúde cardiovascular e metabólica.

Qual o mecanismo de ação?

O GLP-1 é uma hormona produzida naturalmente pelo intestino após a ingestão de alimentos. Esta hormona estimula a secreção de insulina quando os níveis de glicose estão elevados, reduz a produção de glucagina pelo pâncreas, atrasa o esvaziamento gástrico e aumenta a sensação de saciedade.

 

Os agonistas do recetor GLP-1, como a semaglutido e a liraglutido, reproduzem estes efeitos fisiológicos, permitindo um melhor controlo da glicemia e uma redução da ingestão alimentar. Mais recentemente, surgiu a tirzepatido, um agonista dual dos recetores GLP-1 e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).

 

A ativação simultânea destas duas vias hormonais potencia os efeitos metabólicos, traduzindo-se em reduções de peso e melhorias do controlo glicémico ainda mais expressivas.

Para quem estão indicados?

Atualmente, estas terapêuticas encontram-se aprovadas para o tratamento da diabetes tipo 2, particularmente em pessoas que não atingem os objetivos glicémicos apenas com alterações do estilo de vida ou com outros medicamentos antidiabéticos.

 

Algumas destas moléculas estão também aprovadas para o tratamento da obesidade e do excesso de peso associado a comorbilidades, como hipertensão arterial, dislipidemia, síndrome de apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular.

 

A decisão de iniciar tratamento deve ser individualizada e integrada numa abordagem multidisciplinar que inclua aconselhamento nutricional, atividade física regular e acompanhamento médico continuado.

Para além da perda peso

Os ensaios clínicos demonstraram que os agonistas GLP-1 e GLP-1/GIP proporcionam benefícios clínicos relevantes em várias dimensões da saúde metabólica. Entre os principais benefícios destacam-se:

 

• Melhoria significativa do controlo glicémico
• Diminuição da pressão arterial
• Melhoria do perfil lipídico
• Redução da gordura hepática em muitos doentes com doença hepática metabólica associada à esteatose (MASLD)
• Redução do risco de eventos cardiovasculares major como enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral

 

Estes resultados vieram reforçar o papel destas terapêuticas não apenas como medicamentos para a diabetes ou obesidade, mas também como ferramentas importantes na prevenção de complicações cardiovasculares.

Quais são os efeitos adversos mais frequentes?

Os efeitos adversos mais comuns são de natureza gastrointestinal e surgem sobretudo durante as fases iniciais de tratamento ou após aumentos de dose. Os sintomas ligeiros mais frequentemente relatados incluem náuseas, vómitos, sensação de enfartamento precoce, diarreia e obstipação.

 

Raramente podem ocorrer episódios de pancreatite, litíase biliar ou colecistite. A hipoglicémia é muito rara, mas pode acontecer quando associada a outros medicamentos como a insulina e sulfonilureias.

O que podemos esperar no futuro?

A investigação na área das terapêuticas incretínicas encontra-se em rápida evolução. Entre as moléculas atualmente em desenvolvimento destaca-se a retatrutido, um agonista triplo dos recetores GLP-1, GIP e glucagina, que tem demonstrado resultados muito promissores na perda de peso e na melhoria de múltiplos parâmetros metabólicos.

 

Estão igualmente em estudo novas formulações orais, medicamentos de administração menos frequente e moléculas que atuam simultaneamente em diferentes vias hormonais envolvidas na regulação do apetite e do metabolismo energético.

 

Embora muitas destas terapêuticas ainda não estejam disponíveis na prática clínica, os resultados obtidos até ao momento sugerem que os próximos anos trarão novas opções capazes de ampliar ainda mais a eficácia do tratamento da obesidade, da diabetes tipo 2 e das suas complicações.