O pé diabético continua a ser uma das complicações mais desafiantes da diabetes, não apenas pelo risco de feridas e amputações, mas também pelo impacto que pode ter na qualidade de vida das pessoas.
Muitas vezes, pequenas alterações no pé, associadas à perda de sensibilidade e à alteração da forma de caminhar, acabam por criar zonas de pressão que passam despercebidas até surgir uma lesão.
É precisamente aqui que o calçado assume um papel importante.
Atualmente sabemos, através da evidência científica e das recomendações internacionais para o pé diabético, que a prevenção continua a ser uma das formas mais eficazes de reduzir complicações.
E embora o calçado terapêutico possa ser uma ferramenta importante, a sua utilização não deve ser automática, nem igual para todos os doentes.
Nem todas as pessoas com diabetes necessitam de calçado terapêutico.
Um doente sem perda de sensibilidade, sem deformidades e sem antecedentes de feridas pode beneficiar sobretudo de vigilância regular, educação e utilização de um calçado confortável e adequado.
Por outro lado, pessoas com neuropatia, deformidades, zonas de maior pressão, antecedentes de úlcera ou situações mais complexas, como o pé de Charcot, apresentam um risco significativamente maior de lesão e podem necessitar de uma abordagem mais diferenciada e protetora.
Mais do que conforto, o objetivo do calçado terapêutico é proteger o pé.
Dependendo da situação clínica, pode ajudar a reduzir pressão em zonas vulneráveis, diminuir fricção, acomodar deformidades e melhorar a estabilidade durante a marcha.
Muitas úlceras do pé diabético surgem precisamente devido à pressão repetida e utilização de calçado inadequado.
Por isso, a avaliação clínica do pé e a correta estratificação do risco continuam a ser fundamentais antes de decidir qual o tipo de intervenção mais adequado.
Também é importante perceber que o calçado, por si só, nem sempre resolve o problema.
Quando existe uma ferida ativa, sobretudo na planta do pé, muitas vezes é necessário recorrer a estratégias de offloading, ou seja, técnicas e dispositivos que permitem retirar pressão da zona lesionada para favorecer a cicatrização.
Nalgumas situações podem ser utilizados dispositivos específicos, como o Total Contact Cast (TCC), botas de descarga ou outras soluções adaptadas à necessidade de cada doente.
Alguns cuidados importantes na escolha do calçado
Na pessoa com diabetes, pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença na prevenção de lesões. O calçado deve ser confortável, estável e adaptado ao formato do pé.
Alguns cuidados simples incluem:
- Evitar sapatos apertados ou demasiado rígidos;
- Preferir modelos com espaço suficiente para os dedos;
- Evitar costuras internas que possam causar fricção;
- Escolher solas estáveis e antiderrapantes;
- Verificar regularmente o interior do calçado antes de o calçar;
- Evitar utilizar calçado muito gasto ou deformado.
Sempre que existam alterações da sensibilidade, deformidades ou antecedentes de feridas, torna-se importante procurar avaliação diferenciada.
No fundo, o objetivo não é apenas escolher “um sapato especial”, mas sim proteger o pé, reduzir o risco de lesão e prevenir complicações futuras.
Muitas vezes, pequenas adaptações feitas no momento certo podem evitar problemas graves no futuro.