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Depois do cancro, e a memória? Conheça o “Chemobrain”

publicado em 23 Abr. 2026

Para além dos efeitos físicos amplamente reconhecidos, a quimioterapia tem sido também associada a alterações cognitivas significativas, particularmente ao nível da memória. Evidências indicam que entre 17% e 34% dos doentes continuam a apresentar estas dificuldades a longo prazo (Untura & Rezende, 2012), fenómeno conhecido como Chemobrain.

 

Contudo, importa considerar que as alterações cognitivas nem sempre surgem exclusivamente como consequência dos tratamentos oncológicos. Estudos científicos indicam que entre 20% e 40% dos doentes apresentam défices cognitivos no momento do diagnóstico, antes de qualquer intervenção terapêutica (Vannorsdall, 2017).

 

Estas alterações têm sido associadas ao impacto psicológico do diagnóstico de cancro, frequentemente caracterizado por sintomatologia ansiosa e depressiva, perturbações do sono e fadiga.

 

Durante o tratamento oncológico, entre 65% e 75% dos doentes desenvolvem alterações cognitivas (Vannorsdall, 2017), que podem persistir por períodos prolongados, com défices relatados até duas décadas após a conclusão do tratamento (Koppelmans et al., 2012).

 

Estas alterações manifestam-se em dificuldades de memória (“não sei onde deixei a carteira, as chaves ou o telemóvel”; “não me lembro dos recados”), redução da eficiência na execução de tarefas (“não consigo realizar as tarefas como anteriormente”) e sensação de bloqueio mental ou lentidão cognitiva.

 

A persistência destes défices associa-se frequentemente ao sofrimento psicológico significativo, com impacto direto nas esferas profissional, académica, social e familiar. Muitos doentes relatam uma perceção subjetiva de “perda de identidade”, associada às alterações no seu funcionamento cognitivo quando comparado com o período prévio à doença.

A Avaliação Neuropsicológica

A avaliação neuropsicológica constitui um procedimento clínico essencial na abordagem do comprometimento cognitivo relacionado com a quimioterapia. Por meio de testes padronizados e validados, é possível identificar com precisão os domínios cognitivos afetados e caracterizar o perfil de défices do doente.

 

Estudos recentes têm demonstrado alterações em múltiplos domínios cognitivos (Saita et al., 2023), incluindo:

  • Memória: défices na memória de curto prazo e na memória de trabalho;
  • Linguagem: dificuldades na evocação lexical e na fluência verbal;
  • Atenção e concentração: redução da atenção sustentada e seletiva; comprometimento da capacidade de concentração;
  • Funções executivas: prejuízo no planeamento, na flexibilidade cognitiva e na execução de tarefas simultâneas (Multitasking).

 

Contudo, a avaliação neuropsicológica não se limita à identificação de défices, sendo essencial na elaboração de planos de intervenção individualizados, orientados para a reabilitação cognitiva; na implementação de estratégias compensatórias adaptadas às necessidades funcionais do doente; e na diferenciação do Chemobrain de outras condições neurológicas e psiquiátricas, como perturbações depressivas e ansiosas, quadros demenciais ou alterações cognitivas associadas ao envelhecimento normativo.

 

O papel da neuropsicologia assume-se como fundamental não apenas na avaliação das alterações cognitivas associadas ao chemobrain, mas também na intervenção psicológica dos doentes oncológicos.

 

Considerando que as disfunções cognitivas frequentemente se sobrepõem à sintomatologia ansiosa, depressiva e fadiga, a intervenção neuropsicológica integrada permite abordar estas comorbidades, promovendo estratégias adaptativas e de autorregulação emocional. Este enfoque multidimensional é essencial para otimizar o funcionamento global do doente, melhorar a sua qualidade de vida e apoiar a sua reintegração social e funcional.

 

Informação Importante

  • O chemobrain configura-se como um comprometimento cognitivo induzido pelos tratamentos oncológicos, particularmente pela quimioterapia, que pode afetar vários domínios cognitivos (memória, atenção, funcionamento executivo, entre outros);
  • A evidência científica demonstra que estes défices podem persistir durante meses ou anos após o término do tratamento, exercendo impacto significativo na funcionalidade, autonomia e qualidade de vida dos sobreviventes oncológicos;
  • Apesar da sua prevalência e relevância clínica, trata-se ainda de um efeito que muitas vezes não é discutido com os doentes antes do início do tratamento oncológico;
  • A avaliação neuropsicológica permite a monitorização e intervenção psicológica e neuropsicológica, com vista a uma abordagem verdadeiramente integral e centrada no doente.