O que são as Hérnias?
As hérnias são normalmente reconhecidas pelos doentes, como “papos”, “tumefações” ou “forças”.
Estas são defeitos, mais frequentemente na parede abdominal anterior, mas que podem ter outras localizações.
Locais como o umbigo, a “linha” divisória entre o lado esquerdo e direito do abdómen – linha média, em ambas as linhas externas dos músculos abdominais centrais (os músculos retos abdominais), cicatrizes de entrada na cavidade abdominal, entre outros, são outras localizações possíveis.
Estas hérnias nada têm a ver com as hérnias da coluna, Hérnias discais, que são uma patologia das especialidades de Ortopedia ou Neurocirurgia. A hérnia resulta da passagem do conteúdo intra-abdominal – gordura, ansas de intestino, ou outro órgão, por um defeito ou fraqueza na parede abdominal.
Esse defeito pode ser natural ou resultante de uma intervenção cirúrgica anterior. Geralmente os doentes associam o seu aparecimento a uma situação que surge de forma mais ou menos brusca e em relação com um esforço, noutras ocasiões são tumefações que vão crescendo com o tempo.
Dada a sua multiplicidade de localizações, denominações, irei falar das mais frequentes e comuns, para as menos comummente reconhecidas.
Hérnia Inguinal
A hérnia inguinal é o defeito mais frequente na parede abdominal a nível da região inguinal e pelo qual resulta a exteriorização de gordura, ansas intestinais, bexiga e apêndice. Tanto pode aparecer só numa das virilhas, como nas duas.
Afeta cerca de 3-10% da população em idade ativa, sendo mais frequente no sexo masculino. Profissões mais exigentes do ponto de vista físico, têm uma maior frequência destes problemas. Atletas de alta competição, trabalhadores ligados à construção civil, são exemplos práticos, disso mesmo, pelo esforço fisico que ainda hoje aplicam na sua atividade.
Normalmente os pacientes apresentam sintomas que podem ser inespecíficos, como dor na virilha, tumefação que se agrava com o esforço, tumefação que tem vindo a crescer, que geralmente reduz ou até desaparece quando deitados. Nas situações mais avançadas, essa tumefação poderá não desaparecer e gerar grande desconforto.O seu diagnóstico é efetuado essencialmente pelo exame ísico adequado do doente.
A palpação e a pesquisa de tumefação no canal inguinal é, por regra suficiente para o diagnóstico. Em caso de dúvida, a ecografia da região dá-nos o diagnóstico definitivo e
diagnósticos diferenciais. Com o passar do tempo a hernia inguinal tem tendência a aumentar de volume e gerar cada vez mais desconforto.
O uso de fundas não é aconselhável, antes, o doente deve procurar ajuda profissional. O Cirurgião, para que sejam adoptadas as medidas adequadas e atempadas para a
resolução da situação clinica. Só a adoção de medidas terapêuticas adequadas poderão evitar complicações, como o encarceramento/estrangulamento da hernia.
Esta última situação é mesmo uma emergência cirúrgica, e uma consequência poderá ser mesmo a de ter de “cortar intestino”, se não atempada a intervenção. O único tratamento válido, eficaz e definitivo é a Cirurgia. As técnicas cirúrgicas podem variar, e devem ser ajustadas às características de cada doente.
Normalmente, o tratamento da hérnia inguinal envolve o uso de próteses “redes” e a sua aplicação tanto pode ser feita por técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, como a convencional intervenção por incisão sobre a área da hérnia. A recuperação do doente, operado à hernia inguinal, poderá variar, consoante a técnica cirúrgica escolhida, e a profissão do doente. Entre 15 e 30 dias é, por norma um período de recuperação expectável.
Em resumo: a hérnia inguinal é um problema de saúde, que pode ter uma resolução atempada, com segurança e evitar complicações mais graves, pelo que o conselho é procure ajuda e deixe-se tratar.
Hérnia Umbilical e Hérnias da Linha Branca
A Hernia Umbilical é um defeito na parede abdominal localizada na região do umbigo, e pelo qual se podem exteriorizar gordura ou ansas intestinais. Este é um ponto de fraqueza na parte parte central da parede abdominal, e a sua fragilidade deve-se ao facto de ter sido o local por onde atravessaram os vasos sanguíneos no cordão umbilical durante a gestação.
Tal como a hérnia inguinal, os riscos são os mesmos, as complicações são potencialmente as mesmas, os sintomas são semelhantes. O tratamento é igualmente cirúrgico, mas nesta situação nem sempre são aplicadas próteses. Muitas vezes, o tratamento passa apenas por fechar o defeito (quando este é pequeno, quando o doente não é obeso), com recurso a um fio de sutura.
Naqueles doentes com defeitos maiores, obesos, ou outras comorbilidades (outras doenças), a correção da hérnia poderá recorrer ao uso de prótese – rede. A sua aplicação poderá ser feita por incisão em torno da hérnia, ou com recurso a técnicas cirúrgicas mais elaboradas, como a cirurgia minimamente invasiva.
As Hérnias da Linha Branca são aquelas hérnias que aparecem em qualquer ponto da linha média (linha divisória da parede abdominal entre metade esquerda e direita). Estas podem ser únicas ou múltiplas. Os seus sintomas são, geralmente, ainda mais vagos que aqueles nas hérnias inguinais. Para o diagnóstico completo deste tipo de hérnias, para além do exame físico, são adequados a realização de exames de imagem complementares – ecografia de partes moles ou mesmo TAC Abdominal.
Só um correcto diagnóstico, do tamanho e do numero de defeitos, poderá levar a um tratamento adequado ao caso em avaliação. Só assim se poderá definir a melhor estratégia cirúrgica. No tratamento das hérnias umbilicais e da linha média, é frequentemente aconselhado o uso de cintas abdominais, por um período variável de 1 a 3 meses, como forma de limitar o esforço, muito precoce sobre um tecido ainda em cicatrização. Esta medida é tão mais importante, quanto o doente seja, obeso, fumador, tenha bronquite, tosse, profissão muito exigente do ponto de vista físico, etc.
Hérnia Incisional
A Hérnia Incisional, é um tipo particular de defeito da parede abdominal, por onde se exterioriza o conteúdo abdominal. São defeitos normalmente associados a uma intervenção cirúrgica, e o seu aparecimento pode estar relacionado com múltiplos fatores:
- Tabagismo
- Alcoolismo
- Obesidade
- Diabetes
- Doenças respiratórias
- Debilidade Física
- Infecção da ferida cirúrgica
O seu aparecimento, tanto pode ocorrer pouco tempo depois da intervenção cirúrgica, como muito tempo depois, como pequenos defeitos ou defeitos enormes / gigantes. O diagnóstico neste tipo de hérnia, é geralmente mais simples de fazer, mas não o seu tratamento. São por vezes verdadeiros quebra-cabeças.
Há uma multiplicidade de técnicas cirúrgicas, de materiais, de abordagens para o tratamento adequado. Por vezes, o tratamento deste tipo de hérnias envolve equipas multidisciplinares, com procedimentos múltiplos, sucessivos, muito bem programados e prolongados no tempo.
Perante a suspeita de estar na presença de uma hérnia deste género, não hesite… procure o seu cirurgião, ele saberá orientá-lo. Em conclusão todos os tipos de hérnias (e outras há), o tratamento passará sempre pelo seu reconhecimento / diagnóstico, preparação adequada do paciente, elaboração da estratégia terapêutica, com a escolha da técnica e materiais que melhor se adequa ao caso em avaliação.
O seu tratamento é cirúrgico. Procure atempadamente o seu médico e evite complicações mais sérias.