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Risco Cardiovascular: o peso é só a ponta do iceberg

publicado em 06 Mar. 2026

A obesidade é hoje reconhecida como uma doença crónica complexa, associada a um aumento significativo do risco cardiovascular.

 

Mais do que uma simples acumulação de peso, a obesidade envolve alterações funcionais do tecido adiposo — frequentemente designadas por adiposopatia — que contribuem para um estado pró-inflamatório, disfunção metabólica e promoção da aterogénese.

 

Este processo favorece o desenvolvimento de hipertensão arterial, dislipidemia aterogénica, resistência à insulina e, consequentemente, maior probabilidade de eventos cardiovasculares major.

 

A evidência epidemiológica demonstra uma associação consistente entre excesso de adiposidade e aumento da mortalidade cardiovascular.

 

Para além da aterosclerose, a obesidade pode conduzir a alterações estruturais e funcionais do miocárdio, configurando a chamada cardiomiopatia da obesidade, bem como a um aumento do risco de múltiplas comorbilidades metabólicas e sistémicas. Assim, a avaliação do risco cardiovascular na pessoa com obesidade deve ser sistemática, integrada e individualizada.

 

Na prática clínica, a estimativa do risco cardiovascular global através de ferramentas validadas — como o SCORE2 e as suas variantes — constitui um passo fundamental para orientar a intensidade das intervenções preventivas. Estes algoritmos permitem estratificar o risco a 10 anos e definir metas terapêuticas, nomeadamente para o colesterol LDL (cLDL).

 

Contudo, é importante reconhecer que o risco calculado pode subestimar a carga real de risco em pessoas com obesidade, sobretudo quando coexistem fatores como aumento do perímetro abdominal, elevação da lipoproteína(a) ou pré-diabetes.

 

A abordagem da pessoa com obesidade deve ser multifatorial e centrada no doente, combinando intervenção no estilo de vida, terapêutica farmacológica quando indicada e controlo rigoroso dos fatores de risco cardiovascular. Para além das estatinas, outras opções hipolipemiantes (como ezetimibe, ácido bempedóico, inclisiran ou inibidores de PCSK9) podem ter um papel em doentes selecionados que não atingem objetivos terapêuticos.

 

Em síntese, tratar a obesidade é uma estratégia central de prevenção cardiovascular.

 

O reconhecimento precoce da adiposopatia, a correta estratificação do risco e a intervenção terapêutica adequada permitem reduzir a probabilidade de eventos cardiovasculares e melhorar o prognóstico global.

 

Investir na literacia em saúde dos doentes e numa abordagem clínica proativa é essencial para enfrentar de forma eficaz este importante problema de saúde pública.