Epidemia silenciosa
O colesterol é uma substância frequentemente associada a problemas de saúde, mas a verdade é que desempenha funções essenciais no organismo. Contudo, quando os seus níveis ultrapassam os valores recomendados de forma significativa aumenta o risco de doenças cardiovasculares.
As doenças cardiovasculares estão fortemente ligadas a mortalidade. Em Portugal, representam a principal causa de morte, segundo a Direção Geral de Saúde.
Estudos nacionais indicam que cerca de dois em cada três adultos apresentam níveis de colesterol acima dos valores considerados desejáveis.
O colesterol elevado não provoca sintomas. Muitas pessoas desconhecem que sofrem desta patologia, descobrindo-a apenas através de análises de rotina ou quando ocorre uma complicação grave, como um enfarte agudo do miocárdio ou um acidente vascular cerebral. Desta forma e pela sua alta prevalência, o colesterol é considerado uma epidemia silenciosa.
O que é o colesterol?
Apesar da sua má reputação, o colesterol é indispensável à vida. Trata-se de uma gordura produzida principalmente pelo fígado, embora também seja obtida através do consumo de alimentos de origem animal.
O colesterol circula no sangue ligado a proteínas, formando estruturas conhecidas como lipoproteínas. Presente em todas as células do corpo humano, é fundamental para a produção de hormonas, vitamina D e ácidos biliares que ajudam na digestão. As mais conhecidas são o LDL e o HDL.
O colesterol LDL, geralmente designado como “colesterol mau”, transporta partículas de gordura para os tecidos. Quando existe em excesso, pode acumular-se nas paredes das artérias, formando depósitos que estreitam as artérias, dificultam a circulação sanguínea, processo que intitulamos de aterosclerose.
Por outro lado, o colesterol HDL, conhecido como “colesterol bom”, desempenha uma função benéfica. Atua de forma protetora, removendo o excesso de colesterol das artérias e transportando-o de volta ao fígado para eliminação.
Dislipidemia é o nome utilizado para a alteração dos níveis de gordura no sangue.
Fatores que aumentam o colesterol
A alimentação desempenha um papel essencial. A alimentação rica em gorduras saturadas e gorduras trans assim como o consumo em excesso de produtos ultra processados e álcool contribui para o aumento do colesterol.
Contudo, não é o único fator responsável pelo aumento do colesterol. A genética pode influenciar significativamente os níveis de colesterol.
Pode existir uma predisposição genética que resulta no acumulo excessivo de colesterol e a diminuição da sua eliminação
Para além destes dois fatores, o sedentarismo, o excesso de peso e a obesidade são fatores que se encontram em aumento populacional, contribuindo para o aparecimento de dislipidemia. A ter em conta as populações mais jovens, onde vemos estes problemas com maior frequência, podendo desenvolver doenças cardiovasculares de uma forma mais precoce.
O tabagismo e a hipertensão arterial desempenham um papel nefasto no desenvolvimento de doença cardiovascular. Quando associado a níveis elevados de colesterol, provoca a desestabilização das placas de gordura instaladas nas artérias podendo aumentar o risco de eventos cardiovasculares como enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral.
O impacto da alimentação
Durante décadas, a alimentação foi apontada como a principal responsável pelos níveis elevados de colesterol. Embora atualmente se saiba que o problema é mais complexo, a dieta continua a desempenhar um papel decisivo.
Alimentos ricos em gorduras saturadas, como enchidos, carnes gordas, manteiga, natas e alguns produtos de pastelaria, podem contribuir para o aumento do colesterol LDL. As gorduras trans, presentes em muitos alimentos processados e industrializados, são particularmente prejudiciais porque aumentam o colesterol LDL e reduzem o HDL.
Em contrapartida, uma alimentação baseada nos princípios da dieta mediterrânica tem demonstrado benefícios significativos para a saúde cardiovascular. O consumo regular de frutas, legumes, cereais integrais, azeite, frutos secos, leguminosas e peixe está associado a melhores níveis de colesterol e menor incidência de doenças cardiovasculares.
Portugal possui uma tradição alimentar próxima do modelo mediterrânico, mas os hábitos alimentares modernos têm vindo a afastar parte da população deste padrão saudável.
O papel do exercício físico
A prática regular de exercício físico constitui uma das formas mais eficazes de melhorar o perfil lipídico. A atividade física contribui para aumentar o colesterol HDL e ajuda a reduzir o LDL. Além disso, promove o controlo do peso corporal, melhora a pressão arterial e reduz o risco de diabetes.
Os especialistas recomendam pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, como caminhadas rápidas, ciclismo ou natação. Isto representa 30 minutos de atividade física durante 5 dias. É o que basta para fazer uma diferença muito significativa na sua saúde.
Pequenas mudanças no dia a dia também podem fazer a diferença: utilizar escadas em vez do elevador, caminhar mais e reduzir o tempo passado sentado são hábitos simples com impacto positivo na saúde cardiovascular.
A importância do diagnóstico precoce
Uma simples análise ao sangue permite avaliar os níveis de colesterol total, LDL e HDL. Juntamente a estes, é também avaliado o nível de triglicerídeos, outra gordura presente no sangue, responsável pelo armazenamento de energia.
É recomendável que os adultos realizem avaliações periódicas, especialmente quando existem antecedentes familiares de doença cardiovascular, hipertensão, diabetes ou excesso de peso. O diagnóstico precoce permite identificar alterações antes do aparecimento de complicações e possibilita a implementação de medidas preventivas eficazes.
Muitas vezes, mudanças no estilo de vida são suficientes para melhorar os resultados. Pode, contudo, ser necessário recorrer a tratamento farmacológico.
Tratamento farmacológico
Nem todos os casos de colesterol elevado exigem tratamento farmacológico. A decisão depende dos níveis de colesterol, da idade, da presença de outras doenças e, acima de tudo, do risco cardiovascular global de cada individuo.
Quando o risco é elevado ou as alterações dos hábitos de vida não produzem resultados suficientes, o médico prescreve medicamentos destinados a reduzir os níveis de colesterol. As estatinas são os fármacos utilizados e possuem uma eficácia comprovada na redução do risco de enfarte e acidente vascular cerebral.
O uso de medicação não substitui a adoção de hábitos de vida saudáveis.
Mitos e verdades
Um dos mitos mais comuns é acreditar que apenas as pessoas com excesso de peso têm colesterol elevado. Na realidade, indivíduos magros também podem apresentar valores elevados devido a fatores genéticos ou metabólicos.
Outro equívoco frequente é pensar que o colesterol elevado provoca sintomas evidentes. Na maioria dos casos, a doença evolui silenciosamente durante muitos anos. Também é incorreto assumir que a medicação resolve o problema de forma isolada. O tratamento deve ser acompanhado por alterações alimentares e pela prática regular de atividade física.
Por fim, muitas pessoas acreditam que o colesterol é sempre prejudicial. Na verdade, o organismo necessita desta substância para funcionar corretamente. O problema surge quando existe desequilíbrio entre os diferentes tipos de colesterol.
Por fim, o uso de suplementos alimentares ou iogurtes com esteroides vegetais, são utilizados por algumas pessoas como forma de retardar a toma de medicação. O uso de terapêutica não deve ser adiado uma vez que, quando prescrito, procuramos minimizar o impacto de eventos cardiovasculares que podem ser fatais.
O desafio da prevenção
Os especialistas concordam que a prevenção continua a ser a estratégia mais eficaz para combater o impacto do colesterol elevado.
A promoção de hábitos alimentares saudáveis, a prática regular de exercício físico, o combate ao tabagismo e a realização de exames periódicos são medidas fundamentais. As escolas, os profissionais de saúde, as autarquias e os meios de comunicação social desempenham um papel importante na sensibilização da população para este problema.
Quanto maior for a literacia em saúde, maiores serão as probabilidades de prevenir doenças cardiovasculares e melhorar a qualidade de vida da população.
O colesterol elevado continua a representar um dos maiores desafios para a saúde pública em Portugal. Apesar dos avanços na medicina e da crescente consciencialização da população, milhões de pessoas permanecem em risco devido a uma condição que evolui silenciosamente e sem sintomas.
Conhecer os níveis de colesterol, adotar uma alimentação equilibrada, praticar exercício físico regularmente e realizar acompanhamento médico são passos essenciais para reduzir o risco cardiovascular.
Num país onde cerca de dois terços dos adultos apresentam colesterol acima dos valores recomendados, a prevenção assume um papel decisivo. Mais do que tratar a doença, importa agir antes que ela se manifeste.
Cuidar da sua saúde é investir numa vida mais longa e com melhor qualidade.