Os fenómenos de Raynaud correspondem a alterações transitórias da coloração das extremidades, sobretudo dos dedos das mãos, desencadeadas pelo frio ou stress emocional.
Os dedos podem apresentar áreas brancas, azuladas e avermelhadas, frequentemente acompanhadas de dor, dormência ou sensação de queimadura. Em situações prolongadas, podem surgir ulcerações digitais.
Estima-se que o fenómeno de Raynaud afete cerca de 5% da população, sendo mais frequente nas mulheres. Resulta de episódios exagerados de vasoconstrição das pequenas artérias e arteríolas digitais, levando a diminuição temporária do fluxo sanguíneo e hipóxia tecidular.
Além dos dedos das mãos e pés, podem ser afetadas outras zonas periféricas expostas ao frio, como pavilhões auriculares e mamilos.
Nos casos mais graves, sobretudo em fenómenos secundários associados a doenças autoimunes, podem ocorrer úlceras digitais dolorosas, infeções e, raramente, necessidade de amputação.
Causas
Na maioria dos casos, o fenómeno de Raynaud é primário, isto é, não associado a doença subjacente.
Contudo, pode constituir manifestação inicial de doenças do tecido conjuntivo, particularmente esclerose sistémica, lúpus eritematoso sistémico ou síndrome de Sjögren.
A avaliação clínica deve incluir pesquisa de sinais sugestivos de doença do tecido conjuntivo, como telangiectasias, espessamento cutâneo, esclerodactilia e alterações ungueais, bem como estudo da medicação habitual e da exposição ocupacional ao frio ou vibração.
A idade de início é particularmente relevante: aparecimento tardio aumenta a probabilidade de fenómeno secundário.
O diagnóstico diferencial principal é a acrocianose, condição que provoca coloração azulada persistente das extremidades, mas sem dor isquémica nem ulcerações.
A investigação complementar deve incluir estudo analítico com autoanticorpos e capilaroscopia periungueal, atualmente considerada exame fundamental na distinção entre fenómeno primário e secundário, permitindo identificar alterações precoces da microvasculatura associadas a esclerose sistémica.
Tratamento
Quanto ao tratamento, os doentes com fenómeno de Raynaud primário devem privilegiar medidas de proteção térmica, evitando exposição ao frio e tabaco. Nos casos sintomáticos, os bloqueadores dos canais de cálcio continuam a ser a primeira linha terapêutica vasodilatadora recomendada.
Nos fenómenos secundários, o controlo da doença de base é essencial. Em casos graves com úlceras digitais, podem ser necessários fármacos vasodilatadores mais avançados, como prostaciclinas, inibidores da fosfodiesterase-5 ou antagonistas da endotelina.
É igualmente importante evitar fármacos potencialmente agravantes, nomeadamente alguns beta-bloqueadores, descongestionantes e agentes vasoconstritores.
A Medicina Interna é a melhor especialidade para avaliar e aconselhar perante estas situações clínicas.