No inverno, o aumento das doenças respiratórias é quase inevitável e, com ele, surge uma dúvida recorrente: trata‑se de gripe, constipação, rinite ou sinusite?
Entre espirros no escritório, febres que aparecem de um dia para o outro e dores no corpo difíceis de ignorar, cresce também a confusão sobre a condição que nos atacou desta vez.
Apesar de serem frequentemente usadas como sinónimos nas conversas do dia a dia, estes quadros clínicos são diferentes, e perceber o que o corpo está a tentar dizer pode fazer toda a diferença na recuperação.
A gripe é um vírus sistémico, atinge o corpo como um todo e, por isso, é mais grave do que uma simples constipação. Surge de forma abrupta e intensa, com febre elevada, dores generalizadas no corpo, dor de cabeça e de garganta, tosse e, em alguns casos, falta de ar. Por afetar o organismo como um todo, é mais incapacitante, pelo que o tempo de recuperação pode ir dos sete aos dez dias.
Já a constipação, é causada por outros tipos de vírus e tende a ser mais localizada. Os sintomas estão sobretudo no nariz e nas vias respiratórias superiores, o que permite que a pessoa se mantenha mais funcional no dia a dia. A doença manifesta-se através de nariz entupido ou a pingar, espirros frequentes, incómodo na garganta e, quando existe febre, é geralmente baixa. Na maioria dos casos, resolve‑se espontaneamente ao fim de cinco a sete dias.
A rinite está associada a alergias e caracteriza‑se por espirros repetidos, comichão no nariz e nos olhos e corrimento nasal. Enquanto houver exposição ao alergénio, os sintomas podem arrastar‑se durante semanas ou até meses.
A sinusite, por sua vez, é uma infeção das cavidades perinasais, causada por vírus ou bactérias, e provoca dor ou pressão na testa, nas maçãs do rosto e à volta dos olhos, além de secreções nasais mais espessas e, por vezes, febre. Sem tratamento adequado, pode prolongar‑se para lá dos dez dias.
Quando estamos constipados, o incómodo está sobretudo no nariz; na gripe, é o corpo todo que se ressente; e na sinusite, a dor localiza‑se principalmente na face. Ainda assim, há sinais que nunca devem ser ignorados, independentemente do diagnóstico. Se a febre persistir por mais de três dias ou não baixar com paracetamol, se surgir falta de ar ou se a tosse se tornar persistente, é fundamental procurar observação médica. A falta de ar, em particular, é sempre um sinal de alerta.
No que diz respeito ao tratamento, importa desfazer um dos mitos mais comuns desta altura do ano: nem todas as infeções precisam de antibiótico.
Tanto na gripe como na constipação, por se tratarem de infeções virais, o tratamento é apenas sintomático. Isso inclui paracetamol para controlar a febre e as dores, anti‑inflamatórios para aliviar a dor de garganta e lavagens nasais. O uso de antibióticos, nestes casos, é inútil, apesar de muitas pessoas continuarem a pedi‑los. Na sinusite, no entanto, pode ser necessário recorrer a antibiótico, sobretudo quando há suspeita de infeção bacteriana. Já na rinite, o tratamento passa habitualmente por anti‑histamínicos, que podem ser orais ou em spray nasal, que controlam os sintomas, mas não eliminam a causa.
Além da medicação, há cuidados simples que fazem uma grande diferença na recuperação. A hidratação é essencial, seja através de água ou chá, ajudando a aliviar tanto a febre como as dores no corpo. As lavagens nasais com soro fisiológico são úteis em praticamente todos os quadros e uma alimentação equilibrada contribui para uma recuperação mais eficaz.
Numa altura em que a circulação de vírus é maior, a prevenção continua a ser importante. O uso de máscara é recomendado para pessoas doentes ou de grupos de risco, assim como a lavagem frequente das mãos e a ventilação dos espaços, abrindo janelas para permitir a circulação do ar e evitar a acumulação de vírus. Para os grupos de risco, a vacinação contra a gripe continua a ser uma das medidas mais eficazes.
Entrevista in NiT 02/01/2026