“Só come alimentos crocantes.”, “Não aceita nada verde.”, “Se a comida tocar no prato, já não come.”, “Só come aquela marca.”.
Para muitas famílias de crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), estas situações fazem parte do quotidiano e podem transformar as refeições num momento de preocupação, negociação e desgaste. Mas o que pode estar por detrás destas recusas?
A seletividade alimentar é frequente na PEA e pode manifestar-se através da aceitação de um número reduzido de alimentos, da recusa de determinados grupos alimentares ou de uma preferência muito específica por determinadas características dos alimentos. A investigação sugere que estas dificuldades não devem ser interpretadas simplesmente como “manha” ou como uma escolha voluntária da criança. Em muitos casos, estão relacionadas com a forma como a pessoa percebe e processa os estímulos sensoriais, bem como com a necessidade de previsibilidade e com padrões de rigidez.
Quando a textura faz toda a diferença
Comer não é apenas sentir o sabor. A textura de um alimento pode determinar se este é tolerado ou recusado. Alimentos cremosos, granulados, fibrosos, pegajosos ou com várias consistências em simultâneo podem ser particularmente difíceis para algumas crianças com PEA. Uma criança pode, por exemplo, aceitar uma maçã crocante e recusar a mesma maçã cozinhada, apesar de o alimento ser essencialmente o mesmo.
A literatura científica tem identificado uma relação consistente entre dificuldades alimentares e diferenças no processamento sensorial. Alterações na forma como são percecionados estímulos como textura, sabor, cheiro ou temperatura podem contribuir para a dificuldade em aceitar determinados alimentos.
A cor, o aspeto e o cheiro também contam
Antes de provarmos um alimento, já o vimos e cheirámos. A sua cor, forma, aparência, temperatura e cheiro fazem parte da experiência de comer. Para algumas crianças com PEA, estas características podem assumir uma importância particularmente significativa. Uma alteração aparentemente pequena — uma marca diferente, uma embalagem nova, uma preparação diferente ou uma mudança na apresentação do prato — pode ser suficiente para provocar recusa.
Por isso, quando uma criança aceita apenas alimentos de determinada cor, marca ou apresentação, é importante considerar que essa preferência pode estar relacionada com a necessidade de previsibilidade ou com a forma como determinados estímulos sensoriais são experienciados.
E quando a rotina muda?
A previsibilidade pode ter um papel importante nas refeições. Saber o que vai acontecer, quando vai acontecer e o que esperar pode ajudar algumas crianças a sentirem-se mais seguras. Assim, alterações na rotina alimentar — mudar o horário da refeição, o local, o prato utilizado ou substituir um alimento habitual por outro aparentemente semelhante — podem ser difíceis de gerir.
A investigação encontra uma associação entre dificuldades de alimentação na PEA, diferenças no processamento sensorial e maior rigidez comportamental. No entanto, não existe uma explicação única para a seletividade alimentar: cada pessoa apresenta um perfil próprio e diferentes fatores podem estar envolvidos.
Mais do que “comer bem” ou “comer mal”
Quando a variedade alimentar é muito reduzida, importa olhar para além do momento da refeição. Uma alimentação limitada pode, em alguns casos, dificultar a ingestão adequada de determinados nutrientes e associar-se a outros problemas nutricionais. A evidência disponível aponta para possíveis riscos de inadequação de micronutrientes e alterações do estado nutricional, incluindo situações de baixo peso ou excesso de peso. Contudo, estes resultados não acontecem necessariamente em todas as pessoas com PEA e devem ser avaliados individualmente.
Por isso, perante uma criança que aceita poucos alimentos, exclui grupos alimentares inteiros ou apresenta grande dificuldade durante as refeições, a questão não deverá ser apenas “Como fazê-la comer?”. Pode ser mais útil começar por perguntar: “O que está a tornar este alimento difícil de aceitar?”. Compreender se estão envolvidos fatores sensoriais, características específicas do alimento, necessidade de previsibilidade, experiências anteriores ou outras dificuldades permite definir estratégias mais ajustadas às necessidades de cada criança.
Promover uma alimentação mais variada é importante, mas o caminho até lá pode ser gradual. Respeitar o ritmo da criança, compreender as suas dificuldades e criar experiências alimentares previsíveis e positivas pode ser fundamental para tornar as refeições mais tranquilas. Na PEA, perceber que a textura, a cor, o cheiro e a rotina têm um grande peso na experiência de comer é também uma forma de compreender melhor a criança que que temos à mesa.
Referências bibliográficas
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