“Ele come tão pouco… será que está a crescer bem?” Esta é uma preocupação muito frequente entre pais e cuidadores. Quando uma criança recusa determinados alimentos, come pequenas quantidades ou parece ter pouco apetite, é natural surgir a dúvida sobre se estará a receber tudo aquilo de que necessita.
A boa notícia é que comer pouco nem sempre significa crescer pouco. O apetite das crianças pode variar bastante, quer ao longo do dia, quer entre diferentes fases do desenvolvimento. Algumas crianças são naturalmente mais pequenas ou comem menos do que outras e, ainda assim, apresentam um crescimento perfeitamente adequado.
Mais importante do que “quanto come” é perceber como está a crescer. Para avaliar o crescimento de uma criança, não devemos olhar apenas para uma refeição, para um dia de alimentação ou sequer para o peso isoladamente. O mais importante é acompanhar a evolução do peso, do comprimento/altura e, quando adequado, do índice de massa corporal (IMC) ao longo do tempo.
As curvas de crescimento permitem comparar estas medidas com referências para crianças da mesma idade e sexo. As curvas da Organização Mundial da Saúde (OMS) constituem uma das principais referências utilizadas para esta avaliação. Uma criança que se mantém numa trajetória de crescimento estável, mesmo que se encontre num percentil baixo, pode estar perfeitamente saudável. Pelo contrário, uma criança que anteriormente crescia de forma consistente e começa a apresentar uma desaceleração significativa do ganho de peso ou da altura merece uma avaliação mais cuidada. Por isso, um percentil baixo, por si só, não significa que exista um problema. É a trajetória de crescimento e o contexto clínico da criança que ajudam o profissional de saúde a perceber se existe motivo para preocupação.
Porque é que algumas crianças comem pouco?
Existem muitas razões possíveis e, na maioria das vezes, não existe uma única explicação. O apetite pode diminuir naturalmente depois do primeiro ano de vida, numa altura em que a velocidade de crescimento também abranda. É igualmente frequente haver fases de maior seletividade alimentar, em que a criança aceita apenas determinados alimentos, rejeita alimentos novos ou alterna períodos de maior e menor apetite.
O ambiente das refeições também pode ter influência. Pressão para comer, insistência excessiva, distrações constantes ou conflitos à mesa podem transformar as refeições num momento de tensão e contribuir para dificuldades alimentares.
Por outro lado, algumas situações clínicas podem interferir com a alimentação ou com o crescimento, como dificuldades de mastigação ou deglutição, respiração oral, refluxo, doenças gastrointestinais, alergias alimentares ou outras doenças crónicas. Nestes casos, a avaliação deve ser individualizada.
Quando devemos procurar ajuda?
É importante falar com o pediatra ou médico assistente quando existe uma preocupação persistente com a alimentação ou quando, além de comer pouco, a criança apresenta sinais como:
- perda de peso ou ausência de ganho de peso esperado;
- descida significativa da trajetória de crescimento;
- crescimento em altura abaixo do esperado;
- cansaço, palidez ou falta de energia;
- vómitos, diarreia, dor abdominal ou outros sintomas persistentes;
- dificuldade em mastigar, engolir ou aceitar determinadas texturas;
- refeições muito prolongadas ou marcadas por grande conflito;
- uma variedade alimentar extremamente limitada;
- preocupação dos pais que persiste apesar das tentativas de melhorar a alimentação.
As recomendações mais recentes da American Academy of Pediatrics e da NASPGHAN reforçam que uma eventual alteração do crescimento deve ser avaliada através de uma história clínica e alimentar detalhada, exame físico e análise da trajetória de crescimento. Apenas em alguns casos poderá ser necessário um estudo analítico ou outros exames complementares.
O que podem fazer os pais?
Em primeiro lugar, procurem manter a calma. Uma criança saudável não precisa necessariamente de comer grandes quantidades em todas as refeições.
É preferível oferecer refeições e lanches regulares, variados e equilibrados, num ambiente tranquilo, permitindo que a criança participe progressivamente nas escolhas e conheça diferentes alimentos. A exposição repetida a um alimento pode ser necessária antes de este ser aceite.
Também é importante evitar obrigar a criança a comer ou utilizar a comida como prémio ou castigo. O objetivo é promover uma relação saudável com a alimentação, respeitando os sinais de fome e saciedade.
Quando existe uma verdadeira dificuldade de crescimento, a intervenção deve ser individualizada. Dependendo da situação, poderá envolver pediatria, nutrição, terapia da fala ou outros profissionais especializados em dificuldades alimentares. Em crianças com crescimento insuficiente, pode ser necessário aumentar a densidade energética da alimentação, sempre com orientação profissional.
Em resumo
Comer pouco não significa necessariamente crescer pouco. Mais importante do que comparar a quantidade que uma criança come com a de outras crianças é acompanhar a sua trajetória de crescimento e avaliar o seu estado geral de saúde.
Se a criança está ativa, saudável, apresenta uma evolução adequada do peso e da altura e tem uma alimentação globalmente variada, pequenas quantidades ou períodos de menor apetite podem fazer parte do desenvolvimento normal.
Quando existem alterações persistentes do crescimento, perda de peso, sintomas associados ou dificuldades alimentares importantes, é aconselhável procurar avaliação médica.
A melhor forma de responder à pergunta “O meu filho come pouco: devo preocupar-me?” não é olhar apenas para o prato, é olhar para a criança como um todo e para a forma como está a crescer ao longo do tempo.
Referências bibliográficas
- Kersten HB, Goday PS, et al. Clinical Practice Guideline for Diagnosis and Management of Faltering Weight. Pediatrics. 2026;157(4)
- World Health Organization. WHO Child Growth Standards. Geneva: World Health Organization
- World Health Organization. WHO Guideline for complementary feeding of infants and young children 6–23 months of age. Geneva: WHO; 2023